sexta-feira, 11 de março de 2022

O paradoxo do desabafo

 Sempre fui sensível, sempre fui empático com o sofrimento alheio e não preciso dizer o destino daqueles que são empáticos. 

De maneira educada devo dizer que acabei por me ferrar muito, por priorizar o próximo e não pensar em mim mesmo.

Essa exaustão após tantos anos vem numa contraditória necessidade de ser ouvido, de ser o atendido e não aquele que atende.

E que surpresa quando precisamos ser ouvidos e não somos, ou as pessoas não tem tempo pra você.

Elas não tem obrigação de ter tempo para você e é isso o que mais dói.

Foi VOCÊ que escolheu sacrificar as suas próprias horas, as tuas diversões, as tuas vontades, pela vontade, pelas horas e diversões alheias.

A contradição está neste movimento em si; reclamar sobre algo que você mesmo causou é patético e ninguém tem obrigação, repito, ninguém tem obrigação de ser empático com você.

No final meu texto não vai trazer o consolo que eu esperava, nem a resposta pros meus problemas, mas me acalma.

Cauê, ao mesmo tempo que estou sofrendo saiba que te acolho e as coisas vão melhorar, você sabe.

Continuar se importando com os outros não vai te fazer santo, não vai te trazer riqueza, então faça um favor pra mim: seja mais rude, seja mais grosseiro, imponha limites.

Em três semanas você terá 30 anos, não que mude muita coisa, mas muda. Comece a se inspirar pelo "devir Cauê de 30 anos", mesmo que o "devir Cauê" seja ser milionário antes dos 40, estar casado com o grande amor da sua vida, dirigir o carro dos sonhos, ter uma casa grande cheia de cachorros, um casal de filhos, o setup gamer, o videogame, todas as trivialidades do mundo capitalista. 

INSPIRE-SE nele, mas não se deixe iludir. Ele não é real, ele nunca não vai ser. O Cauê REAL sangra, chora, perde dinheiro com besteira, gasta dinheiro com besteira.

Busque equilíbrio, Cauê! Seja feliz sabendo seu limite, mas nunca pare de caminhar, mas acima de tudo, busque terapia. 

Seu TDAH não está controlado o suficiente pra você achar que é engraçadinho ou só um meme. 

Espero seriamente que em um próximo texto você tenha a decência de ter ao menos pesquisado sobre.

Cauê, eu te amo, é que às vezes eu esqueço, eu sei que eu deveria te amar mais, me desculpa...

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Mudanças

 Sempre achei chato fazer mudanças, parte porque sou péssimo em me organizar e parte porque não tenho pique para arrumar as coisas tintim por tintim.

Sempre fui péssimo em me organizar, parte porque não tenho pique para arrumar coisas tintim por tintim e parte porque sempre achei chato fazer mudanças.

Nunca tive pique para arrumar as coisas tintim por tintim, parte porque sempre achei chato fazer mudanças e parte porque sou péssimo em me organizar.

E é nesse ciclo de autossabotagem, pessimismo e conformismo que vou vivendo que aprendi a maior lição: mudanças sempre ocorrerão, sejam elas de natureza intencional ou ao acaso, SEMPRE haverá mudança.

Seja uma mudança boa ou ruim, de casa ou de relacionamento, modo de pensar, estamos sempre em constante mudança.

Recusar-se a aceitar mudanças só acarreta em adoecimento, essa busca por um "tempo bom que não volta nunca mais" quase infantil.

Hoje é meu terceiro dia em uma nova casa e sinto que o mesmo Cauê não cabe nessa nova morada.

Não me sinto acolhido em mim mesmo, necessito da mudança mesmo não escolhendo ela.

Hoje entendo que sempre quis mudar, sempre quis um mundo melhor na minha visão, numa pegada The Sims, como se as coisas se desenrolassem porque e como eu quero e me frustrei quando a vida me ensinou que não é assim que a banda toca.

As mudanças que eu não pedi foram as que mais me moldaram, mais me motivaram a continuar.

Demorei pra perceber que nem tudo é paz e amor, nem tudo são flores, nem tudo é um conto de fadas, nem tudo é uma história infantil.

Não vivo o pessimismo, não vivo o otimismo, não vivo o realismo, eu só vivo, sem saber qual Cauê do meu Fragmentado vai assumir hoje.

Estou cansado, sem dormir direito, comendo pouco, me sentindo solitário, frustrado em diversos pontos da minha vida e sei que tenho que mudar e que vou mudar, mas é aquilo, sempre achei chato fazer mudanças.

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Carta para o Amor

 Oi, sou eu de novo. 

Sinto te informar, mas acho que me tornei um agnóstico do Amor;

Perdi a fé no romantismo, mas não o suficiente pra dizer que não acredito mais; 

Não me sinto amargurado o suficiente pra dizer que o amor é um construto social;

Antes da pandemia eu conseguia falar "eu te amo" de maneira tranquila sem pensar muito no tema;

Hoje me questiono uma, duas, três vezes: "é amor mesmo ou só carência? é amor ou uma expectativa de que seja? te amo ou amo a sensação de estar apaixonado?"

Nessa incansável batalha de "crença versus descrença" que nasce a poesia;

Um poema sem rimas, até porque não há combinações em conceitos antitéticos;

Mas ao mesmo tempo eu ignorar a beleza do rimar seria até antiético;

Escrevo para você porque se você não for real e eu iludido, eu que lute;

Se você for real e eles descrentes, eles que lidem;

Amor, me fala por favor, é delírio o que sinto? 

Você voltou a orbitar a minha vida ou sou eu que acredito no "deus das causas impossíveis"?

Hoje penso se o sentimento por ela sempre esteve aqui, se veio a vir pelas circunstâncias;

Se der certo eu volto a escrever poemas felizes, isso se eu vier a falar para ela que sinto;

Se não der certo, volto com poemas tristes e se ela não souber vai ser como diria Lulu: "caberá só a mim esquecer.."



sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Chove lá fora...

Campinas, 17 de dezembro de 2021.
Há dias tem chovido e parado, chovido e parado, um eterno loop de abafado e úmido. A sensação de abafado parecendo um banheiro cheio de vapor é incrivelmente irritante. Poderia facilmente dizer que descreve minha vida, mas seria muito mas muito desonesto da minha parte. Não vivo um marasmo, um clima morno nos últimos tempos. A cada dia nesse emprego eu experimento sensações diferentes de raiva, compaixão, cansaço. Não possuo mais o encanto do recém contratado, que normaliza o trabalhar demais como sendo algo mágico e uma oportunidade que está sendo me dada. Posso dizer que também não caio totalmente na paranoia do militante de esquerda que olha todo e qualquer trabalho como exploração. 
Escolho uma visão de mundo plural, onde consigo ver uma oportunidade de trabalho e consigo ver que ganho menos do que deveria e trabalho mais do que a minha sanidade gostaria. 
Nem calor, nem frio, nem chuva o tempo todo, nem Sol o tempo todo, esse clima esquisito, mas uma hora vai passar, vai passar...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Desculpa, mas hoje eu não posso...

Campinas, 13 de dezembro de 2021.
Está decretado o seguinte: um dia eu surto.
Hoje eu não posso, pois não bateu nem uma hora da tarde e eu só termino meu turno às 10 da noite.
Não posso passar o dia passivo-agressivo e sendo babaca com quem não me tratou mal. Acho insensato e indelicado continuar esse ciclo de grosseria terrível.
É como uma epi... deixa quieto que esse assunto dá gatilho, mas é algo que se espalha, que inunda e eu prefiro ser a barragem, mesmo que ela estoure dentro de mim, do que ser o córrego que arrasta tudo e todos.
Não posso surtar amanhã, pois é minha folga, é o meu tão esperado momento de descanso 
Não vou surtar essa semana pois é no fim de semana que o restaurante tem mais movimento.
Além do mais eu cubro o domingo de folga do outro caixa.
Segunda que vem recebo o vale e a segunda parcela do 13°, também não posso.
Semana que vem é a semana do Natal, não é um bom tempo pra surtar.
Daqui duas semanas e pouco já é Ano Novo e pela crença popular o que se faz na virada repercute no ano seguinte todo.
Talvez eu surte em 2022, talvez eu não surte.
Preciso olhar minha rotina primeiro...

domingo, 31 de dezembro de 2017

"Que venha 2018!" ou "2017: o ano do quase"

    Sei que eu deveria escrever com mais frequência, mas a inspiração pra escrever algo digno não vem sempre. Bom, vamos ao ponto. 2017. Que ano demoníaco. Desilusões amorosas, problemas financeiros, problemas políticos, problemas pessoais, enfim, tudo conspirou para que eu surtasse e me tornasse mais um das estatísticas. Não surtei, mas não quer dizer que saí dessa ileso.
   
    Fecho esse ano triste e feliz, decepcionado e contemplado, tudo ao mesmo tempo, contradições típicas de quem passa por momentos de crise. Aprendi que existem seres humanos de caráter horrendo e seres humanos de luz. Nesse ano do quase aprendi muito mais com os meios do que os extremos. O mundo seria muito chato se vivêssemos tudo preto no branco, explicadinho e como deve ser. Me sinto bem melhor nesse mundo cinza, de diversas facetas e com diversos personagens e de personalidades profundas.

    Me estressei tão profundamente que me pareceu um grande mês de agosto, mas em compensação dei muitas boas risadas esse ano. Nessas contradições esbarro em duas lições que me ensinaram muito este ano: "sankofa" e "ubuntu".

    Com "sankofa", a ave mitológica do povo akan de cabeça voltada para trás e voando sempre em frente, (que representa o olhar ao passado rumo ao futuro), aprendi que mesmo em constante mudança do meu ser, não posso me esquecer daquilo que me trouxe até aqui, daquilo que formou meu caráter, minha crença e minha pessoa até aqui.

   Já "ubuntu" com a frase "sou quem sou porque sós somos" me fez enxergar como nossas relações afetam nosso viver em sociedade. Aprendi como o amor,o afeto e  a coletividade nos tornam mais felizes e ao mesmo tempo como as neuroses, psicoses, os problemas pessoais e ideológicas são capazes de nos transformar em pessoas ruins.

    Desejei o mal para alguns e o bem para outros, mas o importante de tudo isso foi o aprendizado. Aos amigos, sejam os que estiveram comigo o ano inteiro, sejam aqueles que não vejo há um certo tempo ou aqueles que conheci recentemente, desejo um ano muito próspero para todos nós e que a felicidade seja grande. Aos que não tenho apreço, que desejaram o meu mal, me desprezam, também desejo um ano próspero e bem longe de mim, e parabenizar por quase terem me levado à loucura, mas não foi dessa vez, foi mal.

Um beijo, um abraço e Jah love a todos.



FELIZ 2018!!!
   

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Sobre trotes e tradições



Domingo, 19 de fevereiro de 2017.


O sol de Rio Claro como sempre muito quente e incômodo e, mais uma vez, a palavra "trote" vem bater à porta. Nesse maravilhoso mundo universitário de maquiagens libertárias para amenizar o quão escroto o ser humano pode ser, o trote ainda parece ser não um tabu, mas o contrário, um assunto. que não merece ser levado a sério.


Eu poderia procurar argumentar contra o trote usando autores marxistas, falar sobre a luta de classes e desigualdade social, mas acabaria sendo acadêmico demais para o meu próprio gosto.

Ao falar sobre trote, parece impossível não lembrar de minha prórpia experiência com ele. Tive o cabelo cortado de maneira propositadamente esquisita, fui pintado, bebi cachaça barata para não ser obrigado a pagar 10 flexões, fui a cervejadas e abusei da bebida, isso tudo somente nos primeiros 5 dias na cidade, tudo com o meu "consentimento". Não fui obrigado a fazer essas coisas, não me apontaram uma arma na cabeça, simplesmente obedeci pela vontade de me sentir incluso na universidade. Esse desespero em ser a felicidade dos outros nem que pra isso a gente sacrifique a dignidade.

Tudo isso parecia aceitável, até a Cervejada da Educação Física de 2010. Os veteranos da república onde eu estava morando me falaram a seguinte frase: "Bixão, se alguém te zuar, te incomodar, e você não gostar, procura a gente que nós vamos lá cobrar a pessoa". Menos de cinco minutos depois, um veterano, que nunca tinha visto, formado já há dez anos atrás ou sei lá eu, me pede para servi-lo e depois diz:


"Vai dar uma volta no quarteirão pelado".


Eu me recusei e ele, irritado, explica que não é um pedido, mas uma ordem. Eu o ignorei e me retirei, mas, antes de sair, ele derrubou a cerveja que eu tinha acabado de pôr no copo dele na minha cabeça.


Nesse momento, os veteranos que diziam estar me protegendo começaram a rir daquela situação junto dele. Vi minha dignidade roubada, me senti vazio. Quando fui buscar outra cerveja pra continuar servindo na festa, um outro lá disse pra eu largar da cerveja e ficar no canto bebendo, uma situação quase "deus ex machina".

Nessa noite, conversei e fui aconselhado a procurar um lugar pra ficar como temporário, um lugar de que muita gente falava mal, mas que poderia me acolher: a Moradia Estudantil. Na manhã seguinte mal acordei e já fiz as malas. Não conversei muito, simplesmente fui. Fui acolhido na moradia e me deram um chão pra estender um colchão. Imagine minha surpresa ao descobrir que dividiria quarto com o cara que me defendeu. Aqueles 4 meses em 2010 moldaram muito do que penso sobre trote hoje, mas não é só isso. Nesses anos em que fiquei me iludindo numa graduação que mais faltei do que frequentei, pensei várias vezes na ideia de um "trote ameno", uma integração suave.



Cheguei a pintar pessoas em recepções de ingressantes mas vejo que não faz mais sentido querer suavizar essa lógica infantil e babaca do "é tradição, é uma brincadeira".


Não consigo entender como as pessoas conseguem dormir a noite defendendo trote e ignorando que diminuir, desmerecer uma pessoa pelo que ela é, se chama opressão. Exponho meu caso porque não quero que minha história seja um exemplo de superação, só quero que ninguém tenha que passar por essa palhaçada. Ninguém tem que sofrer pra aprender.

Meus votos para os próximos anos é de que o trote se torne somente um episódio infame no passado das universidades brasileiras, que a zueira seja feita de maneira horizontal sem motivos para diminuir os outros e que tradições como essas sejam quebradas. Passar no vestibular é um marco na vida das pessoas e não precisa de brincadeiras idiotas. Conversar ainda é o melhor jeito de conhecer as pessoas por isso concluo dizendo só uma coisa:







NÃO EXISTE TROTE DE BOA!