sexta-feira, 19 de maio de 2023

Pra Não Dizer Que eu Não Falei do Skate

        Oi, peço desculpas pelos meus modos, mas é que não sei como me endereçar a você. Primeiro que nunca fomos amigos, segundo que mesmo que fôssemos você não iria ler essa carta, pois completaram-se 10 anos da tua partida do mundo terreno. Salva a vez que eu te vi tomando um chopp ali na Independência, pleno coração do Gonzaga quando eu tinha meus 12,13 anos, eu não te conheci pessoalmente. Daquele fatídico 2013, sua partida foi o de menos, afinal como todo bom revoltado, eu era contra a imensa maioria que curtia o seu som, afinal "não é porque eu sou santista que eu tenho que gostar de Charlie Brown". Não preciso nem dizer que me arrependo fortemente dessa teimosia.

    Todos que me conhecem sabem que o Cauê após 2013 curte seu som que nem parece que um dia teve ranço, mas enfim. Dispersei nos pensamentos, fato comum quando estou me endereçando a pessoas que tenho grande admiração. Venho através dessa carta te agradecer por todo o suporte emocional e psicológico que suas letras me deram ao longo dos anos. Suas palavras de amor de um romântico quase pirado, que se emociona, que chora, que demonstra que sangra, algo que me lembra muito Tim Maia se compararmos a intensidade emocional e musical.

    Me apaixonei por mulheres ouvindo seu som, valorizei amizades verdadeiras, me diverti com as músicas irreverentes, me agitei com as batidas mais envolventes, mas sinto que nada nada nada se compara às letras que elevam o espírito. Todos os sons de superação, sejam financeiros ou psicológicos, foram ao longo dos anos moldando a trilha-sonora do meu dia à dia. O que começou com as mais 'batidas' como "Não Deixe o Mar te Engolir" ou "Resolve Meu Problema Aí" evoluiu para os sons mais 'lado B', aquelas faixas que nunca tocaram na rádio, mas que trazem uma carga sentimental de um poeta que vivia a dor e a alegria daquilo que escrevia. 

    Alexandre, Alê, Chóris, Chorão, não consigo encontrar o jeito correto de me referir a sua pessoa, mas acho que entre muitas coisas posso te chamar de amigo. Seu eu-lírico conversa comigo nas minhas maiores 'bads' e me dão a certeza que você veio a esse mundo pra passar a mensagem, cumpriu teu propósito de ser a voz que acalma os corações em crise. Não vejo tua trajetória como algo mágico, não romantizo tua depressão e teus problemas com as drogas, nem ouço tuas canções de amor achando que vou encontrar a minha Grazi, a 'Dona do meu pensamento'. Seus sons e suas letras são o combustível que aquece p coração desse caiçara quando a tristeza de estar longe da nossa terra bate. 

    No final, depois de 10 anos seu som ainda toca nas rádios, e 'O Preço' quem paga é a gente por não te ver sorrir mais. Nessa sexta-feira fria eu escrevi essa carta pra você pois te ouço todos os dias e acho justo agradecer pelos bons conselhos. Mesmo que esses últimos tempos eu tenha sentido meu futuro como um labirinto por não saber o que eu quero, não desistirei. Não vou desanimar pois sei que "a vida é louca, o mundo é foda, mas nós tamo aí na luta" e com certeza eu não vou baixar a cabeça pra nenhum filho da puta. Você foi um grande mestre, um dia a gente se vê!!! 

quinta-feira, 16 de março de 2023

Tá tudo assim tão diferente

    Sinto dentro de mim a mudança das estações. Tenho a nítida sensação de já se passaram anos desde que senti de fato um verão em minha vida... Me senti preso em um eterno Outono-Inverno de lojas de roupa, um período que alterna entre o frio o quente, mas nada muito expressivo que me faça passar um frio de bater os dentes, muito menos um calor que me dê vontade de ficar nu no meio da calçada. 
    Como toda mudança de estação, minhas roupas mudaram, minha aparência mudou, acho que nem tantas rugas, só o peso da idade mesmo. Sei que tendo a exagerar e escrever em meus textos quase como um senhor senil de tanta experiência, mas é tudo recurso de um adulto em seus 30 anos que viveu muito mais do que o tempo cronológico nesses 12 anos de maioridade. 
    Adquiri maturidade, algo que supostamente é de valor inominável, mas que não pinga um real na minha conta e nem me dá notoriedade real. Ok, passei do limite, mas entenda que isso é o reflexo de alguém que por anos a fio foi chamado de imaturo pelas piadas fora de contexto e o senso de humor bobo e inoportuno. A maturidade veio, não do jeito que eu queria, não do  jeito que eu esperava, mas veio. Queria dizer que foi uma construção de anos, que fui aprendendo como é a vida, mas de fato não foi. 
    O TDAH me criou com cliques, estalos de sabedoria da vida, momentos que eu paro pra pensar e tomo jeito. Poderia muito bem ser às 17h de uma sexta, tomando um café e comendo um pão de queijo em alguma cafeteria cara, mas não foi assim. O clique, o despertar, o chamado do herói por assim dizer, foi numa bebedeira, nao durante até porque eu estava em outra realidade, mas no dia da ressaca. O olhar de uma amiga que me aconselhou, quase um súplico, para que eu percebesse a pessoa especial que eu era e não percebia. A ressaca no dia seguinte veio com aquele peso do "a brincadeira acabou,chefe; acorda pra vida". 
    Não digo que minha vida revolucionou ou que virei o faraó do bitcoin, ou o coach da montanha, mas minha vida não tem sido mais a mesma. Aceitei minha jornada ou melhor, a não-jornada da vida. Sei que vou apanhar muito para lutar pelas coisas que espero alcançar, sei que não vai ser fácil e sei que estou fazendo muita coisa motivado por teimosia, mas é o meu jeitinho irresponsável de viver. 
    Não sei o que vai ser do futuro, mas sei do meu passado e tenho finalmente vivido o presente, tentando ao máximo limitar meus delírios utópicos da juventude. Irônico como depois de anos tentando me sentir melhor, ter gastado dinheiro com terapia, ter mudado de cidade 2 vezes e me convertido ao budismo, nada me trouxe o amor próprio, só o estalo.
    Todos os eventos que me trouxeram ao dia de hoje tiveram sua importância e me moldaram em pequenos gestos, algumas arestas aparadas, algumas imperfeições corrigidas, mas minha real mudança veio sem alarde, só veio. No final os dias continuam os mesmos, o mundo ainda existe como um Pálido Ponto Azul, mas eu não sou mais o mesmo. Continua tudo igual, mas diferente...